Pipa, Futuro, Colaboração e Carrefour? — Beia Carvalho — Palestras

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2 de fevereiro de 2018

Pipa, Futuro, Colaboração e Carrefour?

Lagoa formada por marés na Praia da Pipa, RN

Acabo de chegar de férias. Da Praia de Pipa trouxe um exemplo que caiu como uma luva para a minha palestra na Convenção do Banco Carrefour. O evento foi digno de nota! Tudo apontando para o mesmo lugar, o futuro: conteúdos, cenografia, palestrantes, formatos, participação. Meu tema: Futuro & Colaboração.

 

1º slide da palestra sobre COLABORAÇÃO para o Banco Carrefour - jan2018

Há uns 2 anos, a maré da praia central de Pipa, subiu demais da conta e formou essa maravilhosa lagoa, chamada pelos nativos de “maceió”, com barquinhos, que te atravessam pra lá e pra cá. Dê uma olhadinha na foto: distinguiu a lagoa, praia e mar? Tudo muito lindo, não? Pois bem, depois de um tempo, essa maravilha começou a feder e a Prefeitura tomou uma decisão: cavar um caminho, bem no meio da lagoa (sinalizado na foto pela bolinha vermelha), para esvaziar a lagoa jogando seu lodo no mar.

Costumo caminhar muito cedo na praia, não aguento o solzão da linha do Equador. Eram 7 da manhã, quando vi aquele trator enorme cavando o túnel entre a lagoa e o mar. Como sempre acontece nessas ocasiões, tem uma pessoa trabalhando e um monte de gente olhando e palpitando.

Lagoa formada por marés na Praia da Pipa, RN

Nem era tanta gente assim, a maioria pescadores e nativos começando os preparos para mais um dia de rachar o coco. E o zunzunzum comendo solto. Fui me aproximando e compreendi a indignação: na opinião dos nativos, o local do túnel estava totalmente errado. Deveria ter sido cavado no extremo norte da lagoa (sinalizado na foto pela bolinha azul), por 2 razões: primeiramente, porque aquele é o ponto mais profundo da lagoa. Segundo, porque o mar ao norte é mais profundo, com marés mais agressivas, o que levaria a água lodacenta da lagoa muito mais rapidamente para o alto mar.

Dito e feito. Assim que o tratorista abriu a “comporta”, a água correu para o mar e … logo parou. Como previsto, a água marrom invadiu a praia bem ao centro, e lá ficou até o final do dia, sem força para alcançar rapidamente o alto mar. Permitam-me uma pequena digressão: o prefeito achou que esse era o timing perfeito para tomar essa decisão? No alto verão de Pipa, enfeando o magnífico azul desta praia?

Tunel cavado na entre a lagoa e o mar da Praia da Pipa, RN

Voltando. Dali alguns dias, revejo o trator cedinho na praia. Ingenuamente, conclui que o prefeito havia dado atenção aos múltiplos olhares que sempre estão presentes ao redor de qualquer problema. Traduzindo, que havia dado ouvidos aos nativos. Bobinha. Necas! O trator se posicionou exatamente no mesmo local, e apenas cavou um pouco mais profundamente. A patética cena se repetiu: uma insignificante quantidade de água escorreu para o mar. E a lagoa continua lá. Linda e fétida. Para você ter a dimensão da quantidade de água, a foto que tem as bolinhas foi tirada dias após a segunda investida do prefeito!

Bem, e daí?

Meu ponto é que não existe ambiente colaborativo (entenda-se: um ambiente físico ou virtual, onde ideias dissidentes, divergentes e heréticas possam ser livremente expressadas) numa estrutura hierárquica com o poder centralizado.

Estruturas em rede desenhadas de forma simples e genial por Paul Baran

Portanto, se quisermos construir ambientes, momentos ou uma existência de colaboraçãotemos que mudar as estruturas hierárquicas, formais e vagarosas, com vozes de comando top-down, e que nos trazem uma falsa sensação de segurança; para estruturas em rede, mais ágeis, que acolhem a diversidade tão cara à inovação. Nas estruturas em rede, desenhadas de forma tão simples e genial por Paul Baran, o conhecimento e o poder estão distribuídos. Se um pescador morre, o conhecimento não se perde na rede distribuída.

O exercício que proponho é passarmos os nossos problemas por esse filtro, pelo “corredor polonês” das redes: estamos resolvendo os nossos problemas como a Prefeitura de Pipa? Pergunte-se:

Estamos resolvendo nossos problemas de forma centralizada, sem ouvir os pontos de vista dos diversos olhares em torno de um mesmo problema?

Temos alguma dúvida de que os nativos conhecem muito mais e tem uma experiência concreta e acumulada sobre as marés e “maceiós” das praias de Pipa?

Faça esse exercício: substitua os “nativos” por “estagiários” e pense quantas vezes você achou que tinha algo a ganhar se ouvisse a voz de um estagiário.

Veja, que nem diante do primeiro fracasso da Prefeitura, ela cogitou em consultar alguém, antes de repetir o mesmo erro e cavar no mesmo local. Por que? Porque nas estruturas hierárquicas não há espaço para o reconhecimento de erros. Chefes não erram. Isso é coisa de líder, rs.

E durante a sua fala, na abertura da Convenção, Paula Cardoso, a CEO do Banco Carrefour trouxe muitas ideias de exercícios sobre como aprender com os erros. Este é o mindset: expor e agir sobre o erro e não varrê-lo pra debaixo do tapete.

A rede distribuída é terreno fértil, sua dinâmica, seu oxigênio é a colaboração. Sem atmosferas de engajamento, onde o conhecimento possa ser facilmente compartilhado, a colaboração fica sufocada.

Sem ambientes colaborativos, aquele “grito” dos nativos literalmente morre na praia. A liderança colaborativa te coloca no eixo da visão. O chefe, só quer estragar o seu dia.

NOTAS

Estrelas do Futuro: o Chefe e o Líder

-Para mais sobre assuntos sobre a nova Era, assista a minha mini série “Estrelas do Futuro” baseada no filme Hidden Figures sobre as matemáticas negras da NASA. São 3 vídeos: 1) Visão de Futuro e Liderança, 2) Igualdade de Oportunidades 3) Caindo na Real.

-A presidente do Banco Carrefour Brasil, Paula Cardoso, reuniu 4 palestrantes mulheres para inspirar sua plateia para o Futuro. Eu fui uma delas e falei sobre #Futuro & #Colaboração. Os participantes puderam escolher por app quais das palestrantes queriam assistir. Foi incrível! As outras 3 palestrantes simultâneas foram com Monica de Carvalho, do Google; Ana Cortat, da Miami Ad School; e Lala Deheinzelin, da Crie Futuros. Cenografia incrível da Trade Plus. Parabéns, Luciana Mello .

-Paul Baran, 1926-2011. Um dos inventores da rede de comutação de pacotes, junto com Donald Davies e Leonard Kleinrock. Mais na Wikipedia.

Corredor polonês é o nome popular dado a uma passagem estreita formada por duas fileiras de pessoas alinhadas lado a lado, todas voltadas para o centro. O objetivo é maltratar, seja com pancadas ou com o uso de porretes ou arma branca, quem é forçado cruzar a passagem, como forma de represália a alguém que se posiciona contrário a certo ideal ou pessoa.

-Meus agradecimentos a minha amiga Flavia Moura, cearense morando em Pipa, por todos os momentos incríveis que compartilhamos.

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Comentários


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    13 de fevereiro de 2018, 18:28
    By: beia


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